5.4.11

Sábados ensolarados




Que saudade do tempo da minha adolescência. Tempos passados, mas que deixaram boas recordações, como as noites em claro tocando violão com a turma, as aulas entediantes, as fofocas de quem estava ficando com quem, quem tinha beijado quem, o primeiro beijo, a primeira carta de amor. Quem nunca passou por essas coisas? Se não passou, que pena.

Meu Deus, como era bom. Que saudade me dá daquele tempo. Meus 14 anos, ai que saudade. Como éramos ingênuos, nossa! Quantos sonhos, expectativas para quando fôssemos adultos. Gente do céu, era muito bom. O melhor, sem sombras de dúvida, eram as amizades. Amigos que o tempo afastou, amigos vitimados pela distância, pelos compromissos individuais, amigos roubados da vida pelo tempo.

Tenho muita saudade do tempo em que não tínhamos certeza de nada, mas éramos convictos. Kkkkkkkkkkkk... Quantas paixões platônicas, quantos medos infundados, quanta resistência em aceitar as ordens dos pais, quantas neuras, quanto medo de errar e fazer feio na frente dos outros. No entanto, quantas descobertas que nos moldaram a vida.

Sinto falta daquela alegria em ver os amigos, de nos reunirmos e das festas que fazíamos juntos. Falta das conversas longas que terminavam em longos beijos na boca. Faz mais falta ainda de “sentir aquele frio na barriga” ao encontrar a pessoa que se ama em segredo. Falta dos abraços sinceros dos amigos nos momentos difíceis. Falta de jogar conversa fora até tarde da noite. Como era bom, nem víamos o tempo passar.

E as viagens com os amigos? Nossa! Como era divertido, o senso de liberdade e responsabilidade ao mesmo tempo. Éramos uma família só de adolescentes. Nas despedidas dos amigos, chorávamos. Na chegada dos amigos, fazíamos festa. As primeiras bebidas com álcool, quanta inocência. Todos dizem isso um dia na vida: “Éramos felizes e não sabíamos”. Não sabíamos por que a poluição realista do mundo não tinha nos atingido ainda.

Esperávamos a semana inteira passar, para chegar sábado, quando nos reuníamos sempre na casa de um dos amigos. Era abraços e as vezes brigas ou intrigas, cismas adolescentes, coisa de criança crescida, mas depois a paz reinava, se pedia desculpas e se perdoava de verdade. Tudo era festa na companhia da galera, do caldeirão.

Saudade de um tempo que nunca vai sair da memória. Eita vontade de voltar no tempo. Mas não dá. Cada um seguiu seu caminho, e as vezes nos cruzamos pela vida, mas já sem aquela alegria da adolescência. Muita coisa mudou. Crescemos e desaprendemos a viver, desaprendemos o caminho da felicidade, nos roubaram a inocência, sequestraram nossas conversas, prenderam nossa cumplicidade e, é claro, nos separaram.

Que falta me faz sentir o gostinho da novidade das coisas da vida. O primeiro isso, o primeiro aquilo. Saudade de ir descobrindo como tudo o que não sabíamos, coisas que só a vida e o tempo poderia nos proporcionar. Assim, chega um momento, que nada mais é novidade, tudo é rotina, uma sucessão de acontecimentos que o tempo vai te mostrando sobre como é a vida.

Quantos sonhos! Quase todos destruídos pela realidade. Perdemos a inocência, mas ganhamos experiência, responsabilidades e deveres. Eita, que saudade da liberdade daquela época.

Com o passar do tempo, descobri que a vida adulta é mais sem graça do que eu imaginava quando adolescente, no entanto, só com o tempo descobri o que sou e que mesmo a vida de adulto sendo meio sem graça, existe o gosto das suas conquistas ao longo do tempo, como carreira profissional, filhos, satisfação pessoal, dinheiro e notoriedade.

Enfim, a minha juventude permanece, não sou um velhinho gagá, mas se já vivi duas décadas e oito anos e tenho tanta saudade da minha adolescência, é sinal de que a vivi bem, por que “ninguém sente saudade de momentos ruins”, e se é assim, que bom que tenho saudade daquele tempo. Espero que quando estiver mais velho ainda, também sinta saudade dos tempos de hoje.

4.4.11

Até Quando?




Silêncio... respiração surda
Olhos assustados
Um tiro __ Ahn?!
Respiração ofegante...
Coração disparado, angustiado
Escuridão num silêncio gritante
Medo e incerteza se misturam

Gritos de mães e crianças
Passos apressados sobre pedras
Desconfiança em tudo, olhos voltados para o escuro.
Mãos trêmulas sem força
Bocas abertas sem voz, só sussurro
Insegurança num ar respirado por muitos
E a morte não sai do pensamento.

Vítimas, somos todos violentados
Violência urbana, terror incontrolável!
Inocentes mudos, mortos pela intolerância
“E o fim?” pergunta uma voz sufocada e insistente
“A quem iremos nós?” Iremos...
Àquele que na cruz foi vítima de um mundo sem PAZ.

SILVA FILHO, Isaac Cândido da. CRB-GO, Set.2005. (reeditando textos antigos) 

4.3.11

Família, um tesouro negado


Família é uma palavra muito forte e linda pelo significado. É a mais perfeita forma de amar e é normal que toda família tenha suas fraquezas, seus problemas e divergências, mas feliz é que a tem.

Pra mim, família é uma palavra que tem uma significação a mais, essa palavra é muito importante pra mim, talvez porque nunca tive a chance de tê-la de forma plena.

Primeiro meus pais. Brigas, traições, violência e medo. Sempre sofri ao ver o desentendimento entre meus pais. Deitado na cama, eu tremia, chorava, me angustiava ao ouvi-los discutir. Eu e meus irmãos éramos vítimas inocentes de um casamento fracassado e violento. Era horrível acalentar minha mãe depois de ouvir e ver meu pai violenta-la, eu e meus irmãos chorávamos junto com ela ouvindo meu pai bêbado ainda gritando ao sair pela porta da casa, batendo forte a porta ao fecha-la. Era viver num pesadelo sabendo que era realidade.

Minha mãe tinha um temperamento forte e se irritava fácil, quando meu pai chegava bêbado em casa. Ela o insultava e ele não a perdoava, brigava com ela e conosco. Não vivíamos, e sim sobrevivíamos, principalmente aos finais de semana. Sem contar quando o papai chegava acelerando o motor do carro, como se ele estivesse avisando que tinha chegado, eu temia, me escondia entre as cobertas na cama e pedia à meus irmãos que ficassem calados e fizéssemos tudo o que ele mandava. Era pavor e desespero vê-lo cruzar a porta de casa com passos trôpegos, os olhos avermelhados e a voz lenta, arrastada por causa do álcool.

Aos domingos íamos minha mãe, meus irmãos e eu à Santa Missa da noite, quando chegávamos e víamos meu pai bêbado nossos corações se aceleravam de medo, pois a qualquer instante meu pai poderia criar caso e atrapalhar nossa noite. Minha mãe, às vezes, se fazia muda e se humilhava em seu quarto para manter a paz em casa.

Era um terror, momentos de puro caos, mas passou. E não culpo meu pai, nem minha mãe separadamente, culpo os dois. Meu pai era infeliz no casamento e minha também, meu pai bebia álcool compulsoriamente e procurava mulheres na rua, minha mãe no início era uma santa, no entanto com o tempo ela se cansou de rezar e também se entregou ao álcool e foi em busca da felicidade. Eles se separaram depois de 19 anos de casados, todos os dois saíram desse relacionamento muito feridos, a guerra tinha acabado, e os dois saíram vivos, mas nós, os filhos, é que fomos as reais vítimas desse combate cruel e sem amor.

Tive família, mas não a que eu sonhara. Revoltado, saí de casa para construir a minha família, para tentar fazer diferente, para realizar o meu sonho, ter por fim, uma família. Eu, minha esposa e minha filha. Enfim, eu teria a minha sonhada família. Mas Deus, mais uma vez, tinha planos diferentes pra mim.

Casei, tive minha filha. A garotinha mais linda do mundo. Em casa tínhamos amor, cumplicidade e respeito. Era um sonho se realizando, não havia brigas, discussões ou qualquer desentendimento. Mas eu era jovem, 19 anos, sonhador e era muito confiante de que não repetiria o mesmo erro de meus pais e sogros. Doce inocência.

Com o passar do tempo, minha filha foi crescendo e a distância entre mim e minha esposa aumentando. Pensei que fossem coisas da vida, por estar amadurecendo, aumentando as responsabilidades. Não isso, eram as dificuldades da vida a dois. Eram as divergências ideológicas e a postura de cada um se modificando.

Até que um dia, maldito seja esse dia, a semente da infidelidade germinou dentro da minha família. Foi o fim de um sonho, de algo tão almejado: uma família. No início dos problemas, não queria acreditar, negava a mim mesmo tamanha desgraça. Não poderia ficar de braços cruzados vendo minha vida e meus planos irem pelo o ralo. Lutei. Lutei? Tentei, mas a infidelidade é um vírus maligno fulminante, destrói tudo que existe de mais perfeito em uma família, a confiança e o amor. Lágrimas, desamparo, tristeza e solidão, a isso se resume esse período.

Logo a separação era inevitável. Era humilhante, mas eu tinha que aceita-la. E mais uma vez, a família tão sonhada não era pra mim. O golpe mais duro e fatal era eu me separar da minha filha, e até hoje não me perdoo por isso. Ficam muitas perguntas sem resposta, mas não cabe só a mim responde-las.

Triste? É, pode ser, mas é passado. Tenho o desejo muito forte de ter uma família e mesmo tendo fracassado uma, duas vezes, eu ainda sigo tentando, mesmo de formas pouco convencionais, mas no fundo tenho a convicção de que tornarei esse sonho infantil em realidade.

As histórias de vida são inúmeras, com final feliz ou não. No entanto quem faz a minha história sou eu e ela não acabou, porque vivo e ainda não parei de sonhar.